24.2.18

Raças

"A mais louca raça entre os homens
É a que despreza o que há à sua volta e volve o seu olhar para mais longe,
Com vãs esperanças buscando o inconsistente".

Píndaro, citado por Roberto Calasso in "As Núpcias de Cadmo e Harmonia", ed. Cotovia, Lisboa 1990, trad. Maria Jorge Vilar de Figueiredo 

23.2.18

O verbo e a verba, nova versão

"Quem não tem dinheiro não tem palavra", diz o adágio de que mais abomino a justeza, a abjecção, a inescapabilidade.

"Quem não tem dinheiro não tem nada", por exemplo, seria mais abrangente e mais verdadeiro, mas perderia na comparação: pode não parecer mas palavra vale mais do que tudo.

S/título

Poder-se-ia razoavelmente pensar que se num terreno devastado por toda a espécie de desastres caísse uma bomba atómica não se veriam sinais disso. O terreno já está uma pilha de lixo, buracos de chuva, árvores caídas por causa dos ventos ciclónicos, pragas de ratos, deslocações de terras, inundações, desastres de comboios, carros e aviões, tsunamis uns a seguir aos outros.

Como a este quadro acrescentar os danos de uma bomba? Ainda há algo que se possa danificar?

Não sei. Há. 

22.2.18

Bis repetitiæ, fere

O futuro é brilhante. A dificuldade é chegar a ele antes de morrer.

21.2.18

Dor, Quaresma

Ainda bem que a dor não é visível. Se fosse andaríamos vestidos de roxo, todos os dias seriam Quarta-feira de Cinzas e a vida não passaria de uma interminável Quaresma, uma Quaresma sem Páscoa à vista.

Claire, ou Claude

Chamava-se Claude, ou Claire, não me lembro. Era uma mulher alta, loira, magra, bonita e para mim incompreensivelmente triste.

Tinha acabado de chegar de Gibraltar, encontrámo-nos num dos bares da marina e um pouco de chofre perguntou-me se me importava que fosse dormir a bordo do barco onde eu estava. Tinha-se zangado com o namorado, etc. A história é conhecida. Depois dizem-te que por favor não lhes faças nada, não lhes toques, é mesmo só para dormir, tu percebes, percebes?, e tu percebes, claro: se fosse para foder não precisaria de te pedir, bastar-lhe-ia pôr a mão na coxa enquanto fala contigo e daí passá-la pelo cabelo, há por ali um código qualquer que até um cego como eu percebe, mas quando te pedem para dormir já sabes que nessa noite vais ter népias, o melhor é carregares já no rum para ver se adormeces antes de os demónos te atazanarem e logo esta, tão bonita e tão frágil, agora percebes porque estava triste.

Disse-lhe que sim, tinha dois camarotes vagos e estava sozinho a bordo, o armador autorizava-me companhia "desde que seja bonita e não a tenhas apanhado na rua" (mas isto não lhe disse) de maneira fomos jantar ao Star System - é muito bom e barato e Claire ou Claude tinha insistido para ser ela a pagar -, quando chegámos a bordo ela despiu-se no salão e perguntou-me "Vamos tomar um duche? Os brasileiros dizem que é o melhor afrodisíaco mas eu acho que é o único" e foi aí, juro, que lhe olhei para as mamas a primeira vez e vi-as como se fossem as primeiras da vida toda, como se nunca tivesse visto uma mulher nua à minha frente.

Foi na casa de banho que fizemos amor, antes de o fazer no camarote, ainda todos molhados, na casa de banho sentados na retrete, tampo fechado, ela de costas para mim dizia-me "por favor não te venhas já" e repetia "por favor não..." e eu não me vinha, de qualquer forma já devem ter reparado: um gajo só se vem quando está farto do que está a fazer, até se fartar vai aguentando, isso de fazer durar para lhes dar gozo parece-me treta, não sei, não percebo nada, só sei que estava a gostar muito e não queria acabar por nada deste mundo e quando fomos para o camarote continuámos até ela me dizer "não aguento mais" e aí sim, vim-me e fomos dormir, ela no camarote de bombordo e eu no de estibordo, fico sempre a estibordo e a von Hildebrand lá ficou a cantar até me levantar para acabar com aquilo.

Quando acordei Claire ou Claude já lá não estava. Fui ao café, o Rui deu-me um bilhete dela a dizer-me "não te posso dar o que tu procuras" e eu não percebi nada, nunca percebo nada, seja como for.

Como é que ela sabe o que eu procuro?

Não procuro nada. Voltei para bordo, pus a Jeanne Lee e desatei a chorar, pela primeira vez em muito tempo.

19.2.18

Arrogância, modéstia

A linha que separa a modéstia da arrogância é finíssima mas extremamente resistente: sobrevive a tudo.

18.2.18

O pouco e o infinito

Chegámos tarde um ao outro; não seremos o princípio da história. Apanhámo-la já ela corria há muito tempo, tinha tido episódios, intervalos, fitas partidas, saídas a meio e entradas intempestivas. Só nos resta sentarmo-nos um ao lado do outro e fazer o que falta - pouco, felizmente -.

A menos, claro, que desse pouco façamos o infinito. 

Opções e impossíveis

Os gregos transferiram para os seus deuses o encargo de fazer tudo o que eles (gregos) queriam fazer e não podiam: violações, incestos, amores desbragados, raptos e trinta por uma linha.

Os católicos optaram por ter santos, anjos, mártires e virgens.

Ou seja: tanto os deuses gregos como os santos cristãos fazem o que para a humanidade é impossível.

Mas se tivesse de escolher preferiria a abordagem grega: antes o impossível decalcado da vida do que a sua negação.

17.2.18

Partes e outros

Algumas partes do meu corpo não me parecem minhas. É como se precisassem de ser tocadas para as sentir parte de mim. Quem fala nos outros como se não fôssemos nós não percebeu nada.

16.2.18

Diário de Bordos - Lisboa,16-02-2018

É preciso dar graças: os males sucedem-se mas não se acumulam. Veio uma espécie de gripe mais a cair para a constipação e foram-se - empurradas, aposto - as vertigens. Ora imaginem se em vez de se empurrarem se acomodavam umas às outras... Seria eu um albergue espanhol para vírus, batérias e quejandos; e quem me recebe uma espécie de agência de viagens. Antes assim, tipo comboio: amarradinhas mas seguindo-se. O meu sistema imunitário anda por baixo, é verdade: mais sensível do que eu (está longe de ser difícil) reage pior aos estímulos que de fora lhe chegam. Às más vibrações, por assim dizer, se fosse hippie ou new age e acreditasse nisso das vibrações que são simultaneamente particulas e enviamos uns aos outros, etc.

Não acredito em nada disso. Acredito em mim - este "mim" inclui o sistema imunitário, que hoje reforço com doses extra de whisky -. Para isso servia o rum dos antigos marinheiros: reforçar as fraquezas, como numa muralha os operários se despacham a pôr os tijolos que faltam. Les briques manquantes, diria em francês. E ainda há quem se admire de o francês ser uma ,língua elegante.

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Não percebo nada disto. Oiço um disco de Amélia Muge com um grego e o disco é soberbo.

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E dói-me a cabeça, mas isso tem a ver om a gripe, não é grave, meia dúzia de analgésicos e resolve-se a questão, mais meio litro de whisky mais cama mais o raio que parta esta porra toda.

Não há raio que parta esta merda toda. Ou sou eu ou não é ninguém, nem Zeus.

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As Núpcias de Cadmo e Harmonia é o melhor livro que li nos últimos duzentos ou trezentos anos, com algumas breves excepções. Penso nele enquanto a dor de cabeça aperta as mãos ao Paracetemol e ao whisky, com a música da Muge em fundo. A mulher canta como um deus vive: com a ligeireza e profundidade de quem sabe que conseguirá lidar com seja o que gor que aí venha.

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Já eu vivo como um deus canta: indiferente a quem me ouve. Não é tão bom, mas é o que há.

15.2.18

Poesia de hoje

Fui ao Irreal ouvir Cláudia Sampaio ler o seu "Primeira urina da manhã". O livro é esplêndido. Cláudia leva quase à letra o que eu me recomendo: é preciso escrever com sangue.

Ela vive-o e escreve-o como o vive. Oscila entre a beleza de algumas imagens e a crueza de outras. A Cláudia e Miguel Martins são de longe os meus jovens poetas favoritos. E têm a vantagem não despicienda de mostrar que a poesia portuguesa de amanhã não vai estar amarrada ao surrealismo vigente.

Instruções

Il faut porter ses défauts comme un modèle porte des habits: avec désinvolture.

Inominável

Inominável é uma palavra que devia ser mais utilizada. Sub-aproveitada, por assim dizer. Beckett usou-a como título, mas lá está: era um génio.

Inominável é vasto: quase tudo é inominável, contrariamente ao que parece ou pensamos. Esta dor de cabeça, por exemplo: muito mais do que a cabeça dói-me tudo, o dia, a semana, o inverno, a esperança. Tudo.  Chamar dor de cabeça a isto não passa se uma simples ilusão, um comodismo, um facilitismo.

Inominável seria mais adequado. Não lhe dar de todo nome. Não me referir a ela, não para lhe esconder a existência mas porque é demasiado vasta para ser sequer perceptível, distinguível de tudo o que a rodeia.

Poderíamos viver num mundo de coisas sem nome? Ó pobre sombra ridícula, tu já vives num mundo de coisas inomináveis. Só não te apercebes disso porque alguém lhes deu um nome há alguns anos e tu habituaste-te a usá-lo, sem te aperceberes de que por baixo desse nome jaz um vastíssimo território de nada, de coisa nenhuma, um deserto inominável.

Vadeamos por aqui como uma criança pré-linguagem, mas como falamos e escrevemos e lemos não nos apercebemos do engano.

Inominável.

Madalena

Madalena era simultaneamente impulsiva e calculadora. Não ao mesmo tempo, claro: não saberia dissimular a que não estava a uso porque era uma pessoa fundamentalmente honesta consigo própria e com os outros. Mas a mistura - ou alternância - de um racionalismo frio, calculador, que pesava os prós e contras do menor gesto com uma explosão de sentimentos inesperada era difícil de gerir, tanto por ela como por mim.

Um dia enganou-se numa reserva de bilhetes de avião e acabámos por viajar em voos diferentes. Não foi engano, foi um impulso. Pouco tempo depois deixava-me, com grandes manifestações de pesar. Não eram impulsos, eram calculadas. Escrevia magnificamente e cantava melhor. Ou ao contrário, nunca percebi. Zangava-se muitas vezes comigo porque lhe dizia que devia cantar mais, profissionalmente.

Madalena foi o meu principal, maior, mais doloroso falhanço amoroso. Estou-lhe muito grato por isso: traçou uma linha que sei agora não devo pisar, sob risco de pesadas sanções. Felizmente há poucas mulheres como ela e o risco de tropeçar numa é nulo.

Só não percebo porque me obstino a procurar.

14.2.18

Sofrer e fazer sofrer

O presente é uma fraude fugaz e não penso muito nele. Mas penso em certas coisas do futuro e noutras do passado e apercebo-me de que em mim uma coisa não mudará nunca: prefiro sofrer a fazer sofrer.

Atitude que de resto me sai cara.

Meças, por pouco

Não tenho a mais pequena dúvida de que se cantassem em inglês Chico, Caetano e Simone pediriam meças aos Beatles.

No que me diz respeito ganham-nas claramente. Agora basta ensinar português a alguns biliões de pessoas.

Diário de Bordos - Lisboa, 14-02-2018

Ontem - ou terá sido anteontem? Isto passa tão depressa... - fui ao Irreal e pela primeira vez lá ouvi música medíocre; enfim, a música até era boa ou pelo menos assim-assim.  Terrível foram os textos das canções. Infantis, primários, desinteressantes, déjà entendu mil vezes. As melodias safavam-se. A flauta era um bocadinho pedante, mas quando o homem a trocava pelo sax a coisa ia.

O guitarrista e chefe da banda cultivava uma imagem à la Tom Waits. Fez-me lembrar o Chico António, que ouvi muitas vezes em Maputo e acentuava o seu lado Miles Davis. Apesar de tudo o Chico António era melhor do que este, além de que gosto mais de jazz do que de canção.

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Voltei a irritar-me com a senhora que agora gere aquilo. Infelizmente foi pouco, não ando com paciência para exorbitar sentimentos, sejam eles bons ou maus. E esta ainda por cima mal a conheço, não sei se é só um bocadinho parva se completamente idiota. Irritou-me ela ter transferido para a M., com quem eu estava, o mau-humor que normalmente é para mim. Há coisas que não gosto de partilhar.

A M. levou aquilo na boa, ontem encontrei um músico da Martinique (excelente. Toca lá todas as terças. Desta não cheguei a tempo, estive a apanhar uma seca de fado) e pronto, a irritação diluiu-se - apesar de ela ter tentado chatear-me outra vez e de novo falhado. [É para estas ocasiões que o verbo desconseguir foi inventado...]

Só espero é que isto não passe muito deste nível de desgosto mútuo porque a música é boa e o bar excelente. Adoro aquele lugar e não quero ter de deixar de lá ir por causa de uma bifa que ainda por cima anda de boné à Andy Capp, um dos meus heróis.

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Acho que me estou a repetir. Paciência. Como disse um dia Nuno Júdice "a repetição é um recurso do estilo". Ou coisa que o valha, cito de memória. Os meus livros ainda estão encafuados cada vez mais longe de mim, filhos da mãe. Para não dizer filhos da puta, expressão que tinha reservada para o meu pâncreas, até me lembrar que chamar filho da puta a um orgão nosso é como chamar a um irmão: por mais que o mereçam é chato para a senhora que os fez. Enfim, quero que o pâncreas se foda e para o provar acabo de comer uma tablette inteira de chocolate, coisa que já não fazia vai para muito tempo. Isto de matar o frio com vinho e café tem limites e a repetição tira bastante eficácia ao remédio.

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Só me apetece ir para a cama ler, mas o sacana do frio até isso torna difícil, não consigo ler com os dois braços debaixo do cobertor e o que está por fora enregela-se e me em menos de dois parágrafos. Tenho meia dúzia de livros à espera da clemência do tempo, mas hoje trouxe mais um do Institut Français, ando para o ler há demasiado tempo. Chama-se L'hiver à Lisbonne e é a tradução francesa (quem diria?) de El invierno en Lisboa, do Muñoz Molina. Se pudesse enchia uma banheira de whisky e metia-me lá dentro com uma tonelada de livros (estes ao lado, claro) e só saía quando o whisky tivesse acabado e estivesse cheio de frio outra vez.

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Reflexões profundas sobre a escrita: se leio merda tenho medo de fazer a mesma coisa; se leio uma coisa sublime sei que nunca conseguirei chegar àquele nível. Em ambos os casos o resultado é o mesmo.

(Não é totalmente verdade, mas é como se fosse. Comecei este blog porque li tantos tão merdosos que pensei "de qualquer forma pior do que isto o meu não será". Vão catorze anos e des poussières. Não tarda está um homenzinho).

O fado e a indecisão

A capacidade de indecisão dos portugueses só tem igual na sua incapacidade de decisão.

Não decidem: são decididos - pela "vida", esse fantasma omnipresente no cosmos português -.

T. S. Eliot dizia que havia uma terceira pessoa no seu casal. Em Portugal essa terceira pessoa é "a vida": somos permanentemente encornados pela "vida" e cantamos o fado para fingir que não sabíamos. 

Sentimentos, simetrias

Deve ser-se tão selectivos no ódio como no amor. São simétricos. Alguém que odiamos deve esforçar-se por merecer o nosso ódio. Da rapariga que trabalha no I. não sei sequer se é parva, quanto mais odiosa. Sei que não me grama, no que é perfeitamente correspondida. Vá lá, ao menos isso. Daí a ser odiosa vai um passo gigante e que do meu lado requer mais paciência do que a que agora tenho. Talvez mais tarde.

Isto dito, Andy Capp é uma das minhas personagens de BD favoritas e qualquer pessoa que se lhe assemelhe ou use acessórios próximos dos dele merece a minha simpatia.

Ninguém é imperfeito. Enfim, totalmente imperfeito.

(Curiosa, esta assimetria da imperfeição. Ninguém é perfeito, todos somos imperfeitos. Mas deve haver graus, não?

A perfeição não os tem, é digital. Já o seu oposto é analógico.
)